Blog do Alfredo

Month: fevereiro 2016

A constância do caos

Muitos percebem, estupefatos, que o mundo perfeito no qual pensavam viver – nunca existiu. Era escondido por uma névoa, um biombo misterioso que protegia as pessoas da realidade cruel – permitindo que estas vivessem um sonho dourado de um meio sem conflito, sem bandidos de qualquer espécie (onde os mais temidos estavam enjaulados ou estereotipados como aqueles que não se adequaram a sociedade: presídios e manicômios).

Este mundo foi solapado na exata medida em que a sobrevivência do “ideal” demandava cada vez mais cercas, biombos e camuflagens.

As redes sociais desnudaram a realidade – mostrando que não apenas o Rei está nu.

Trump, o Bolsonaro “deles”

O descrédito que cerca a classe política não é, ao contrário do que querem simplificar alguns, uma característica “brasileira” ou uma revolta “nossa”. Trata-se da fadiga mundial de modelo político onde o ser governo, o estar governo – são apenas eufemismos a designar quem, no suposto comando, é o marionete da vez.

E quando partidos têm a oportunidade de fazer a ruptura – como foi o caso do PT e de Lula no Brasil em 2003 – o que eles buscam é compor com uma realidade podre que eles mesmos denunciavam e prometiam extirpar. A relação promíscua que o governo Lula estabeleceu com a mídia é uma demonstração da irresponsabilidade do partido (e dos seus dirigentes) nesta questão.  E esta relação e seu modus operandis durou os oito anos de Lula e será assim nos oito anos de Dilma.

O anacronismo do sistema político – no qual o dinheiro define a potencialidade de candidaturas e a consanguinidade faz com que o cargo passe a ser quase um “bem de família” no conceito jurídico – reduz todos ao mesmo padrão. Partidários de todas as siglas cantam exultantes o fato de que o PT está igual a “eles”.

Estamos no Séc. XXI e os políticos, em nível mundial, repetem o mesmo padrão administrativo e de comportamento lesivo ao conjunto das sociedades que eles, supostamente, prometem proteger e resgatar de um quadro de degradação.

Em Portugal, quem perde governa. Na Espanha, ninguém sabe quem perdeu ou ganhou.

Na Argentina, Macri implanta um ideário neoliberal – mas a mídia brasileira, comprometida com esta proposta, não mostra as marchas populares que acontecem quase todos os dias em Buenos Aires.

Na Venezuela, Maduro não tem nem capacidade e nem liderança para colocar o País nos eixos – em um momento de falta de dinheiro por conta da queda do preço do barril de petróleo.

Este é o caldo social pronto para o surgimento de lideranças do perfil de Hitler e de Mussolini, de Franco e de Salazar – que usam o desencanto da sociedade com os políticos tradicionais (e seus métodos de prometer e não cumprir) para atrair hordas de eleitores.

Observemos com atenção o que acontece aqui entre nós.

Observemos com atenção o que acontece nos EUA – onde as prévias partidárias começaram no iníciode fevereiro e se extenderão até junho.

No lado Democrata temos a disputa entre Bernie Senders – que se auto-intitula democrata socialista – e Hilary Clinton.

No lado Republicano, o leque de opções revela todo o desencanto dos estadunidenses com o atual momento.

Podemos traçar paralelos entre o Brasil e os EUA?

Lá, como aqui, temos um candidato histriônico (ps: definido pela Associação Americana de Psiquiatria como um transtorno de personalidade caracterizado por um padrão de emocionalidade excessiva e necessidade de chamar atenção para si mesmo, incluindo a procura de aprovação e comportamento inapropriadamente sedutor, normalmente a partir do início da idade adulta. Tais indivíduos são vívidos, dramáticos, animados, flertadores e alternam seus estados entre entusiásticos e pessimistas), fanfarrão e que atua na política como se estivesse num stand up, como se estivesse em um circo ou num show decadente e mambembe de ilusionismo.

Trump e Bolsonaro atuam mais como personagens do que enquanto cidadãos – flertando de modo irresponsável com o desencanto das pessoas. Assumem a postura do anti-herói, para tentar a condição de herói.

Olhando pela perspectiva histórica – não passam de bufões.

Mas mesmo os bufões e os palhaços podem nos ensinar muitas coisas…

As distorções do Estado e a conivência da sociedade

Que me desculpem os que gostam de fazer festa com o dinheiro dos outros, mas o Governo – qualquer que seja ele! – patrocinar eventos que têm potencial de causar problemas é uma forma dos governantes escarnecerem do conjunto da sociedade.

E isto vale para o Carnaval, para Copa do Mundo, para Olimpíadas…

É engraçado que o Governo – seja de qual nível for! – esteja legalmente “proibido” de patrocinar festas ou eventos religiosos. Mas pode investir dinheiro em passeatas, construir elefantes brancos, incentivar os vícios e, não contente, disponibilizar estruturas e serviços que são negados ao cidadão no sue dia a dia.

Nas madrugadas de Carnaval, os hospitais ficam lotados de foliões que se esbaldaram na bebida. Encontrarão, nos hospitais públicos, a retaguarda de médicos, de enfermeiros e de medicamentos – convocados em regime de plantões. Até mesmo ambulâncias estarão de prontidão.

E no dia a dia… como fica o cidadão… como fica o trabalhador?

É uma demonstração de patifaria e de fraqueza dos nossos governantes esta distorção: quem trabalha, é penalizado. Que cai na borracheira, merece respeito e um tratamento humano… E não me venham com a esparrela de que estas festas são feitas para o trabalhador, para o operário…

O dinheiro que o GDF gasta nestes eventos é voltado para uma classe média do Plano Piloto, dos lagos, dos condomínios de alto padrão e alguns moradores da periferia.

Porque o trabalhador mesmo, aquele que rala no buzu, aquele que se arrebenta trabalhando… este aproveita eventos como o do Carnaval para consertar algo em casa, assar uma carne e tomar uma cachaça nas redondezas de onde mora.

O arcabouço de metrô que temos no DF, na verdade uma porcaria que foi implantada nos idos de 90 por uma das mais nefastas duplas da política candanga – Roriz e Arruda – é uma aberração desde o seu projeto inicial até o seu limitado estágio atual.

Esta coisa, que durante os dias de trabalho, já padece por ser obsoleto e não atender as demandas dos usuários e circular em períodos que não contemplam a diversidade de jornadas de trabalho de quem vai além do expediente padrão do comércio e dos servidores públicos, teve horários especiais (o mesmo com algumas linhas de transporte público).

O que por si só já é questionável, ficou ainda mais complicado depois da depredação de três ou quatro unidades por vândalos alcoolizados.

E adivinha quem vai pagar pelo estrago?

O reino efêmero das subcelebridades

Pois, os glúteos comandam a nação!

Passear pelos portais, deter-se diante de jornais nas bancas ou mesmo ligar a televisão é a certeza de que o incauto irá se deparar com alguma “celebridade” mostrando-se como oferta em vitrine -falta apenas estipular publicamente o valor do seu uso temporário.

Mas sempre existem aqueles e aquelas que se esmeram na arte de superar as barreiras imagináveis da degradação e da vulgarização. No afã de segundos de fama (cujo objetivo é a cama), não se importam com a escatologia mais aterradora e nem com promiscuidade.

Na Uol Online foi possível saber que Vanessa Caroline Alcântara, ex-esposa de trambiqueiro da máfia do ISS de São Paulo (antes do Haddad, que fique claro), enfiada em trajes mínimos de padrão estético vulgar, informava, na condição de subcelebridade, que iria para a avenida para “causar” – expressão não dicionarizada mas que, no contexto, poderia ser entendida como “divulgar-se”.

O que dizer então daquela que a mídia sentenciou como a “musa do impeachment” ao expor os seios diante do Masp em passeata no ano passado?

Bem feito para a Unidos do Peruche que aceitou a perua. Necessitando de holofotes, primeiro ela quis desfilar comum tapa sexo com o rosto de Dilma estampada no “objeto”. Dizia que era uma forma de protestar. Proibida, resolveu desnudar-se em plena avenida.

O importante era “causar”.

Tanto fez que causou a reação de Luana Safire, moradora da comunidade e que foi rainha da bateria em 2006 e 2007. E a reação de Luana foi algo que chamou a atenção.

No seu perfil em rede social, Luana desceu o malho:

“Vadia, ficou pelada na avenida sem preocupação com o nosso trabalho de um ano inteiro de uma família chamada Peruche… lembram que avisei? Eu avisei, porra! Dito e feito… E que isso não atrapalhe nossa escola!”.

E disse mais,a ex-rainha:

“Que essa puta corra, mas corra muito… porque quem me conhece sabe, Peruche é parte de mim, é meu respirar também… Então se eu trombar não vai prestar! Raça de sambeiras… Massageando o próprio ego! Se tiver que contar ‘estória’… Que seja banguela”.

Os termos são pesados e mostram a indignação de quem ainda sonha com o Carnaval como algo sadio.

“Corra… mas corra muito… Eu já te conheço, Ju Isen… Mas corra, corra muito para você não conhecer a rainha mais brava que o Peruche já teve!”

Para concluir:

“Iniciamos os trabalhos, ‘bora’ para os jogos mortais… Tem que apanhar mesmo! Quer ficar peladona? ‘Noix ajuda, parça’… Sou contra a violência, mas essa tem que apanhar… Gosta de tomar ‘pau’ no ofício, mas vai tomar de gente grande… Quer ficar famosa? Toma, vadia… Defendo meu pavilhão até a morte… sou Peruche? e a rainha mais de briga que a escola já teve…”.

Claro que o Uol está abrindo espaço para a musa.. é parte do seu papel.

Mas eu me pergunto: até quando o Estado vai continuar investindo dinheiro para patrocinar estas festas, quando falta dinheiro para o essencial?

Carnaval: hora de fechar as torneiras…

Pois… estamos no Carnaval.

E o Carnaval, posso até estar enganado, torna-se cada vez mais um espaço para a prostituição e a violência. Não há mais o glamour da reinvenção da alegria, mas a banalização sexual em níveis que escancaram a vulgaridade de mulheres que buscam nos desfiles um espaço para divulgação dos seus serviços.

É lamentável que o Estado – falido e sem recursos para o atendimento de necessidades básicas de TODOS os cidadãos – aloque recursos, convoque efetivos de segurança, disponibilize viaturas e ambulâncias (que, no cotidiano, muitas vezes não podem “sair” por falta de combustível), mantenha de prontidão equipes de emergência em hospitais e até mesmo “crie” horários especiais para o transporte coletivo apenas para atender foliões.

Ler os noticiários nestes dias serve para mostrar o quanto o Estado brasileiro – em todos os níveis – é perdulário.

Aqui no DF, onde falta dinheiro para a compra de esparadrapo nos hospitais, o governador desembolsou milhares de reais para uma festa que é mambembe e só serve para a proliferação de doenças e a beberragem. Sem contar os custos indiretos pela disponibilização de serviços que, no dia a dia, ele mesmo diz ser impossível conceder.

Em São Paulo, a prefeitura teve que bancar R$ 300 mil para a estrutura do seu camarote.

A culpa não é do Rollemberg, nem do Haddad e nem dos outros políticos que consideram mais confortável repassar o dinheiro do que terminar com o paternalismo.

Estava em Florianópolis (SC) quando Edson Andrino (PMDB) venceu as eleições municipais em 1986 – quando teve eleições na capitais pela primeira vez depois do fim da ditadura (que muitos insistem em dizer que não houve no Brasil). Ao assumir, deparou-se com os cofres raspados e tomou a medida radical de fechar a torneira e não liberar os recursos para as escolas da cidade.

Enfrentou a ira dos profissionais do samba, aqueles que juram amor pela escola, mas sempre se dão bem com o dinheiro público.

Na eleição de 1998 – o mandato dos prefeitos das capitais foi de 2 (dois) anos para ajustar-se ao calendário eleitoral do restante do país – a principal bandeira do Esperidião Amin era a volta do dinheiro para as escolas de samba.

Amin venceu pela promessa – pouco importando se a gestão do Andrino tenha sido boa.

Para que serve o Estado?

Talvez fosse melhor indagar: para quem serve o Estado?

A dura e cruel realidade é que, ao longo de nossa história, observamos que houve uma apropriação do Estado por duas forças supostamente antagônicas:

  1. de um lado, a estrutura burocrática e o corporativismo dos servidores públicos;
  2. de outro, segmentos empresariais e produtivos que criaram mecanismos poderosos e perversos (do quais, o  mais visível, é a corrupção endêmica que se estabelece entre uma iniciativa privada que de capitalista só tem a ganância pelo lucro e uma classe política naturalmente sem compromissos com o País – enquanto que o mais repugnante é a impunidade) que os protegem da concorrência e do risco.

E o Estado, que tem na prestação de serviços básicos (educação, saúde, transporte e segurança) aos mais frágeis da estrutura ou edifício social sua razão de existir, acaba penalizando os únicos a quem deveria efetivamente proteger.

Exemplos da distorção do “papel do Estado” estão em toda parte – como, por exemplo, na estapafúrdia prática de usar o subterfúgio do patrocínio estatal para bancar eventos como o Carnaval. Não há lógica que justifique que o Estado, já tão depauperado, ainda se preste à filantropia momesca.

A sociedade precisa discutir qual o efetivo papel do Estado – porque, afinal de contas, a conta é desta mesma sociedade que, muitas vezes, se sente tão anestesiada ao ponto de imaginar que vale mais a pena juntar-se aos sanguessugas do que lutar por uma relação mais justa e na qual o papel do Estado seja servir.

E não servir-se.

O risco da opção da culpa eletiva

Para muitos, as sentenças públicas de execração – como  julgamentos bizarros – acabam tendo mais importância do que a preocupação com a discussão do que nos trouxe até este ponto. Não há coragem de ler a realidade, apenas pinçar nuances como partes de um jogo, como peças de um tabuleiro onde o objetivo final é tão somente o benefício pessoal.

Os éticos e puros são apenas imagens que vão se moldando ao momento. Travestem-se daquilo que imaginam agradar mais à platéia – ou seria à patuleia? – da qual querem apenas o voto. Entregam migalhas, um abraço, um sorriso e promessas esparsas de que “depois você me procura”.

Tudo é teste. Em tese

Vivemos um tempo estranho, porque na ausência de uma alternativa política, a oposição está esperando que a imprensa decida quem ela quer na Presidência da República – junto com uma PF saudosa dos tempos nos quais nada podia fazer; de um Ministério Público com síndrome de mariposa (não pode ver um pau de luz, na saudação do saudoso Ulysses Guimarães, e de juízes que resolveram interpretar a Lei de uma forma muito peculiar para situações muito específicas.

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