O risco de ficar alijado do comando dos melhores orçamentos de um eventual e já previsto Governo Temer fez com que o PSDB antecipasse o fim do beicinho e deixasse de lado qualquer pudor infantil: quer ser e estar no governo.

Mas não é apenas o tucanato que corre e se oferece, agora sem nenhum pudor ou receio, para fazer parte do governo sem votos de Temer. O Demo também está sendo chamado – e já aceitou o convite! – para fazer parte do processo de construção da governabilidade.

Não deve causar nenhuma surpresa este repentino sentimento cívico e de brasilidade. A equação é simples e revela a faceta perversa por trás do processo constitucional do golpe parlamentar via impeachment: ninguém mais estava conseguindo viver sem as verbas públicas.

E a proposta de Temer é sedutora, em todos os sentidos: os ministérios serão entregues inteiros, ou no linguajar mais correto e conhecido: porteira fechada e torneiras abertas. As siglas que receberem determinado ministério, receberão integralmente a estrutura para repartir entre seus filiados e apoiadores. Inclusive a administração da publicidade deixará de ser feita pela Secom – que deverá ser extinta. No caso, a propaganda institucional do “novo” Governo ficará nas mãos da Casa Civil – Eliseu Padilha no comando.

Mas é importante destacar que há sim uma unidade e uma afinidade ideológica entre Temer e os partidos que se associam ao grande projeto de usurpação da democracia – ou como diz Ayres Brito numa demonstração de cinismo e doentia hipocrisia: pausa democrática. Tal qual figuras manipuladas no tabuleiro – e aqui não há como não lembrar do tabuleiro de xadrez do Harry Potter onde as pedras são movimentadas a partir de uma varinha “mágica” imantada – os convivas querem se esmerar e aproveitar o clima de “aliança” que acreditam ter no Congresso Nacional para finalmente conseguirem aprovar um pacote de medidas que, atendendo aos ditames de quem os financia e orienta ideologicamente, contemple:

  • reforma da previdência, com o fim da vinculação dos reajustes das aposentadorias e pensões ao salário mínimo de quem estiver na ativa
  • venda de ativos/privatização (abertura do capital da CEF é o principal)
  • volta do antigo modelo de exploração do petróleo no Brasil
  • proteção ostensiva ao capital, sem risco de taxação de grandes fortunas (algo que, por covardia, o PT não teve coragem de avançar)
  • redução dos investimentos nas áreas sociais
  • incremento da política de concessão e de privatização de bens e serviços públicos (inclusive nos moldes que o governo do PT fez, mas sem as amarras e precauções observadas)
  • desvinculação constitucional de percentuais do orçamento para educação e saúde
  • “atualização” da CLT com o fim do protecionismo aos trabalhadores que é considerado excessivo e lesivo
  • direito de grave e até emsmo de sindicalziação dos servidores públicos
  • nova e militar relação com os movimentos sociais, buscando a sua sistemática criminalização
  • fim das políticas de valorização das minorias, com a extinção de ministérios e secretarias
  • incorporação do MDA – Ministério do desenvolvimento Agrário pelo MA – Ministério da Agricultura e o fim do apoio à agricultura familiar
  • fusão de ministérios que supostamente atuam de modo convergente
  • rediscutir a estrutura universalizante do SUS
  • rever critério do Fies e pró-Uni, com a implantação da meritocracia
  • fim imediato do “Mais médicos” e do “Ciências sem fronteiras”
  • reforma política com a implantação gradativa da cláusula de barreira

É um ideário para deixar parcela significativa da sociedade com os cabelos em pé.

Infelizmente, até agora não foi possível ler nada sobre dois pontos importantes:

  • fim do imposto sindical
  • fim do fundo partidário

Porque se é verdade que nada justifica o governo repassar dinheiro para as centrais sindicais como preconizam alguns – mas esta proposta não prosperará no governo Temer porque as centrais que mais precisam deste dinheiro ou de outro dinheiro público o estão apoiando (NCST, Força, UGT e CSB), igualmente nada justifica que a sociedade banque a estrutura dos partidos.

A lógica é simples: se cabe ao trabalhador bancar sua entidade sindical é importante também destacar que cabe ao militante partidário bancar a estrutura de seu partido…