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Eleições 2018: Lula define a pauta e dita o ritmo

Ontem, andando por gabinetes tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal, tirei a tarde para conversar com velhos conhecidos e conhecer novos interlocutores. Muitas vezes é mais fácil saber como um deputado ou senador votará, sabendo com quem conversar. Não serve como fonte, mas ajuda a formar um mapa da realidade do País que vamos vivendo.

E algumas constatações são interessantes, outras, apenas refletem os caminhos e descaminhos de nossa política.

Que o Temer vai se safar desta, ninguém duvida. A votação deve ser similar à primeira votação – até porque quem tinha algo para perder, já perdeu. E quem não teve coragem para arriscar o pescoço “antes”, agora sabe que qualquer deslize implica em retaliação – e 2018 tem eleição.

Ficou claro também que o Governo Temer trata a sal sem água quem ousa votar contra os seus projetos – e deputados da base aliada costumam dizer que não conseguem ser recebidos nem pela telefonista de ministros.

Mas, há um tema que acaba atraindo todas as conversas: Lula.

Na medida em que conversei com amigos que atuam com vários congressistas, de distintos partidos e esparramados em regiões, o assunto sempre acabava sendo a indagação e muitas vezes a indignação tinha como mote central a contrariedade com os números apresentados por pesquisas eleitorais.

Tenho a opinião de quem o Lula, multiprocessado r provavelmente impedido de participar das presidenciais em 2018 conseguiu vender-se como vítima de injustiças, perseguido pela justiça e aquele que vai reparar todo o “mal” que o Governo Temer personaliza, com reformas e mudanças em legislações.

Lula não tem sido confrontado politicamente sobre os desmandos que aconteceram em seus governos e nem das contradições de um governos “dos trabalhadores” que propiciou os maiores lucros aos banqueiros. Claro que conta com uma capa protetora que está nos milhões de brasileiros que saíram da linha da miséria, mas as contradições mais profundas não tem sido exploradas pela oposição.

Esta mesma oposição, que em 2003 delegou para a mídia o papel de contraponto ao governo do PT, continua sem saber fazer política, continua sem um eixo, sem um rumo, sem um norte ou uma proposta alternativa. Digladia-se na disputa personalista e na necessidade de salvar o pescoço de aliados – sem perceber que ao optar por essa estratégia, mantém Lula como o único ator efetivo do tabuleiro eleitoral.

Este marasmo no campo dos “contra” poderia ser ocupado por Marina, mas ela tem sido omissa em momentos cruciais e também não está aproveitando o vazio político do centro para se mostrar como uma alternativa viável e diferente.

Sobra, pois, todo um espaço para que Jair Bolsonaro se apresente como um nome “contra tudo isso”, sem especificar o que ele pensa de questões fundamentais como Bolsa Família, Fies, Renda Mínima, pensões de viúvas e filhas de militares, condução das políticas econômicas, papel dos bancos públicos, privatizações…

E Bolsonaro cresce porque o campo da esquerda cai na esparrela do deputado e centra sua discussão em temas que ele se sente confortável em atuar – inclusive por conta da fadiga de boa parte da comunidade com a sensação de impunidade e de insegurança que existe no Brasil.

Quanto mais a esquerda e o centro teimarem em tratar a candidatura de Bolsonaro como uma impossibilidade política, mais ele se fortalece junto ao eleitorado. Porque ele não é confrontado – ele é ridicularizado, como se isso fosse o suficiente.

Alguns lembram do crescimento de Marina em 2014 quando, em um determinado momento passou a colocar em risco a dobradinha Aécio e Dilma para o 2º turno e os dois grupos se uniram e rapidamente desconstruíram a sua candidatura.

Não sei se a desconstrução de Bolsonaro será tão fácil, porque há uma percepção muito forte na sociedade que tanto Lula, quanto Marina, Ciro ou o nome que o PSDB ungir para a disputa será “mais do mesmo” – porque, gostem ou não, a verdade é que o único “nome” que não condiciona sua pré-campanha ao que Lula faz, pensa e promete é Bolsonaro.

Doria – deixou de ser pré-candidato para ser apenas caricato

Bem embalado, empacotado e com seus deslizes administrativos e seus pecados de lobista cuidadosamente maquiados – transformando em empresário de sucesso quem nunca nada produziu, além de viver às custas de governos – Doria não conseguiu manter-se muito tempo dentro do figurino do produto que o marketing criou.

Claro que vencer o PT hoje não chega a ser mérito de ninguém, dada a rejeição que o partido enfrenta por conta de uma reiterada campanha de desconstrução da sigla. E nem vou entrar aqui no mérito ou nos equívocos, mas diria que o PT paga mais por seus acertos do que por seus erros, ainda que entre os seus maiores erros esteja exatamente o de não ter rompido com o status quo ao vencer as eleições em 2002.

Muitas vezes eu discuti com petistas lembrando que a sigla havia vencido uma eleição, o que era bem diferente do que “ganhar” o governo. Ou seja: ao não romper, Lula e o PT pagam o preço da governabilidade – dentro daquilo que o PSDB de maneira muito lúcida chamou de “presidencialismo de cooptação”.

Doria, que vive e enriquece dos governos (inclusive do PT) desde os anos 80, foi vendido como símbolo do sucesso – um case patético, o arquétipo sonhado pelos anti-petistas: rico, sem rugas (prestes a completar 60 anos), com esposa bonita e esbanjando sucesso.

E o eleitorado paulista – que também é símbolo da decadência da aristocracia brasileira, mas ainda tenta manter o antigo ar de superioridade – comprou o candidato, como quem compra um pacote de sabão em pó.

Durante a campanha eleitoral de 2014 estive em São Paulo duas vezes – uma bem próxima às eleições (Feira da Abav de 2014, em setembro). E perguntei ao taxista que me conduzia pela via expressa, porque ele tinha dito que votaria no Doria e ele sintetizou: ele é contra o PT, logo ele que antes havia dito que tinha comprado um apartamento pelo minha Casa – Minha Vida e que a filha fazia jornalismo (eu estava com colete e máquina fotográfica) graças ao Fies.

Ou seja: alguém que tinha sido duplamente beneficiado por políticas dos governos do PT, iria votar e tinha adesivo no carro de alguém que tinha como mérito ser… contra o PT.

Foi assim que Doria, o velho sanguessuga de verbas públicas, virou o herói.

E teria, acredito, vida longa se o novo de repente não esquecesse que aquela figura que o marketing eleitoral criou deveria ser sempre aquela figura que o marketing criou. Mas o velho sanguessuga, o velho fanfarrão, não se conteve e resolveu mostrar que a ambição era muito maior do que a razão e começou a atropelar a moralidade – quando começou a conceder benefícios e contratos aos patrocinadores de “sua” entidade – a Lide, que inclusive concedeu prêmio ao Moro.

O que dizer da sua insistência em usar produtos próximos ao vencimento para transformar em ração para os pobres – tratando-os como animais? E, desmoralizado na sua proposta, eis que ele volta com a ideia de agora fazer com que os alunos da rede pública de ensino comam a ração.

É muita estupidez…

E ele que surgiu como uma possibilidade, como uma alternativa ao próprio PSDB, revelou-se incapaz de entender que tudo na vida tem um timming, que toda ação gera uma reação e que a exposição excessiva e de modo forçado acaba gerando um risco de “queimar” a figura.

E depois de surgir com uma roupagem de modernidade, a cada momento o Doria prefeito se revela mais a figura acabada daquilo que ele o Doria candidato dizia ser a negação – elitista, presunçoso, arrogante e incapaz de aceitar críticas.

Vai definhar nas pesquisas, por mais que os meios de comunicação continuem tratando ele como alguém exótico, como alguém engraçado, caricato – uma espécie de bobo da corte. Ao romper as regras de lealdade dentro do PSDB, Doria se encaminha para ser apenas um político paulistano – no que de pior isto pode representar.

O ego ainda vai enterrar o Doria

Os rompantes de Doria, que atua no cotidiano como se ainda estivesse em um talk show, servem para o aplauso dos puxa-sacos que existem (pagos com recursos públicos) para elogiar/bajular e alimentam a percepção de que é muito fácil fazer com que o showman se revele um destrambelhado. Pela incapacidade de ficar quieto, usa a boca para enterrar aquilo que os marqueteiros conseguiram criar.

Feito garoto mimado – antigamente dizia-se que era típico de guri criado pela avó – Doria não sabe conviver com a contrariedade. Comandado por um ego doentio, o episódio dos ataques preconceituosos em lugar de ser razão dele continuar se vangloriando, deveria fazer com que o prefeito procurasse acompanhamento psiquiátrico. No mínimo e com urgência.

Sem estrutura emocional para conviver com a pressão, Doria hoje é um cadáver preconceituoso – que em lugar de ser o novo que a propaganda tentou vender, é apenas o arquétipo do esclerosado que a pele lisa e sempre bem vestido tenta esconder. Lembrando Pessoa, é um cadáver adiado – cuja única razão de existir foi a percepção das equipes de marketing de que dava para vender um fusca velho como se fosse uma mercedes.

FHC paga até hoje o preço de ter chamado de vagabundo quem, mesmo com plenas condições, se aposenta antes dos 50 anos. O fruto do seu destempero está nas redes sociais e hoje serve como uma marca do pré-sexagenário Doria (completa 60 anos em dezembro): basta cutucar o vaidoso e ele se perde nas tamancas.

É de se imaginar as pérolas que a figurinha midiática geraria em caso de uma campanha presidencial, quando forem desenterrados seus atos nada republicanos quando comandou a Embratur no começo dos anos 90 (e a forma nebulosa como conseguiu sua miraculosa absolvição), os apoios financeiros sistemáticos de governos do PSDB e o fato de ter feito fortuna sem jamais ter tido qualquer atividade produtiva – apenas através do lobby que, ao menos que eu saiba, ainda não é atividade regularizada no Brasil.

Este episódio criou esta dimensão por ter sido, além de uma série de insultos grosseiros, contra alguém da sua laia – porque quando Doria atacava petistas, o Lula e era grosseiro contra as mulheres, daí estava tudo bem.

Depois desta trapalhada, talvez ele se dê conta de que tenha que virar prefeito e daí a porca definitivamente torcer o rabo: em quase 60 anos, será a primeira vez que ele efetivamente terá de trabalhar.

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