Blog do Alfredo

Category: Privatização

Doria – deixou de ser pré-candidato para ser apenas caricato

Bem embalado, empacotado e com seus deslizes administrativos e seus pecados de lobista cuidadosamente maquiados – transformando em empresário de sucesso quem nunca nada produziu, além de viver às custas de governos – Doria não conseguiu manter-se muito tempo dentro do figurino do produto que o marketing criou.

Claro que vencer o PT hoje não chega a ser mérito de ninguém, dada a rejeição que o partido enfrenta por conta de uma reiterada campanha de desconstrução da sigla. E nem vou entrar aqui no mérito ou nos equívocos, mas diria que o PT paga mais por seus acertos do que por seus erros, ainda que entre os seus maiores erros esteja exatamente o de não ter rompido com o status quo ao vencer as eleições em 2002.

Muitas vezes eu discuti com petistas lembrando que a sigla havia vencido uma eleição, o que era bem diferente do que “ganhar” o governo. Ou seja: ao não romper, Lula e o PT pagam o preço da governabilidade – dentro daquilo que o PSDB de maneira muito lúcida chamou de “presidencialismo de cooptação”.

Doria, que vive e enriquece dos governos (inclusive do PT) desde os anos 80, foi vendido como símbolo do sucesso – um case patético, o arquétipo sonhado pelos anti-petistas: rico, sem rugas (prestes a completar 60 anos), com esposa bonita e esbanjando sucesso.

E o eleitorado paulista – que também é símbolo da decadência da aristocracia brasileira, mas ainda tenta manter o antigo ar de superioridade – comprou o candidato, como quem compra um pacote de sabão em pó.

Durante a campanha eleitoral de 2014 estive em São Paulo duas vezes – uma bem próxima às eleições (Feira da Abav de 2014, em setembro). E perguntei ao taxista que me conduzia pela via expressa, porque ele tinha dito que votaria no Doria e ele sintetizou: ele é contra o PT, logo ele que antes havia dito que tinha comprado um apartamento pelo minha Casa – Minha Vida e que a filha fazia jornalismo (eu estava com colete e máquina fotográfica) graças ao Fies.

Ou seja: alguém que tinha sido duplamente beneficiado por políticas dos governos do PT, iria votar e tinha adesivo no carro de alguém que tinha como mérito ser… contra o PT.

Foi assim que Doria, o velho sanguessuga de verbas públicas, virou o herói.

E teria, acredito, vida longa se o novo de repente não esquecesse que aquela figura que o marketing eleitoral criou deveria ser sempre aquela figura que o marketing criou. Mas o velho sanguessuga, o velho fanfarrão, não se conteve e resolveu mostrar que a ambição era muito maior do que a razão e começou a atropelar a moralidade – quando começou a conceder benefícios e contratos aos patrocinadores de “sua” entidade – a Lide, que inclusive concedeu prêmio ao Moro.

O que dizer da sua insistência em usar produtos próximos ao vencimento para transformar em ração para os pobres – tratando-os como animais? E, desmoralizado na sua proposta, eis que ele volta com a ideia de agora fazer com que os alunos da rede pública de ensino comam a ração.

É muita estupidez…

E ele que surgiu como uma possibilidade, como uma alternativa ao próprio PSDB, revelou-se incapaz de entender que tudo na vida tem um timming, que toda ação gera uma reação e que a exposição excessiva e de modo forçado acaba gerando um risco de “queimar” a figura.

E depois de surgir com uma roupagem de modernidade, a cada momento o Doria prefeito se revela mais a figura acabada daquilo que ele o Doria candidato dizia ser a negação – elitista, presunçoso, arrogante e incapaz de aceitar críticas.

Vai definhar nas pesquisas, por mais que os meios de comunicação continuem tratando ele como alguém exótico, como alguém engraçado, caricato – uma espécie de bobo da corte. Ao romper as regras de lealdade dentro do PSDB, Doria se encaminha para ser apenas um político paulistano – no que de pior isto pode representar.

E o PSDB encontrou um nome e um baita problema

0402 - BA - Doria

Doria surge como uma alternativa com o verniz do “novo”, mas sua ligação com os cofres públicos vem do começo dos anos 90

Manhã de domingo, eis que antes mesmo do café da manhã, desanda o celular a acusar chamadas. Tenho por hábito atender, nos finais de semana, apenas ligações de números identificados, de pessoas conhecidas.

E o número que insiste é de um código 011. Uma, duas, três e quando veio a quarta ligação, resolvi atender.
– Alemão… agora nós não precisamos mais que o Moro prenda o Lula…

Pelo sotaque paulistano, arrastado e carregado de nuances de quem nasceu em Piracicaba e se orgulha até dos erros de concordância, ficou fácil saber quem estava assim todo afoito.

– Bom dia, primeiro… E nós quem, cara pálida?

A gargalhada inconfundível veio acompanhada de um regozijo que não havia nas últimas e monocórdias conversas quando ele apenas sentenciava:

– Ou o Moro prende o Lula, ou vamos morrer de fome sem o dinheiro do governo…

E a explicação eufórica, como quem estava ali pela terceira garrafa de vinho ou sexta dose de uma boa cachaça da Weber Haus, veio logo: os reiteradamente derrotados, acreditam ter encontrado um nome para se contrapor ao favorito…

Na verdade, eu já havia captado esta sensação de alívio que percebo entre os conhecidos que antes de mais nada odeiam o Lula e depois detestam o PT. Já tinha conversado com alguns tucanos que, coçando a cabeça, se mostravam ainda contrariados com o almofadinha – mas já admitindo que o “novo” que eles temiam em hipótese alguma seria Bolsonaro.

Mas era uma espécie de alivio contido e um misto de resignação e perplexidade: ele vai nos engolir, constatavam estes tucanos em conversas ao longo dos últimos 45/60 dias.

Ao se vender como um político não político – e que sempre teve dinheiro público em suas ações empresariais e carrega inclusive condenações do TCU por malversações e estrepulias quando comandou a Embratur – Dória ocupou um espaço no imaginário social que estava vazio.

Bolsonaro tentou ocupar este espaço, mas a falta de consistência de sua cruzada e o fato de ser apenas um caricato, sempre impediram que ele fosse visto pelo centro e pela direita como um nome. Na verdade, ele teve o papel de, quando toda a oposição esperava o que os jornais diriam para se manifestar, Bolsonaro ficava entupindo redes sociais com suas tresloucadas, bizarras e insanas tiradas.

Para este segmento, a aparição de Doria soa como uma espécie de oásis.

É a possibilidade de um paulista voltar ao comando do País, de onde foram ejetados pelas urnas em 2002. E, o mais importante, com a possibilidade de preservar o Moro para ações futuras – ele que foi um prestativo defensor da causa em ações como Banestado e Lava Jato.

Mas qual a capacidade de Dória sobreviver fora do aquário de super-proteção que a mídia paulista lhe concede. Como ele irá reagir quando as contestações aos factóides que ele cria forem sendo confrontados coma  realidade? Olhando de longe, Dória afz com que relembremos de César Maia – hoje engolido pela lata de lixo da história e que deve estar sobrevivendo daquilo que amealhou e não houve intenção em descobrir.

Como Doria irá reagir quando confrontado pelas ruas – e já se sabe que ele não tem muita habilidade no trato direto, sem encenação e sem roteiro.

Será o Doria uma espécie de Collor do séc. XXI?

Com as redes sociais dissecando cada momento do seu passado, dos seus contratos de publicidade, com seus débitos do IPTU, com as promessas abandonadas em seu plano de metas e tantas coisas que ainda nem se sabe… como Doria irá sobreviver?

E mais…

  1. Alguém acredita que Andrea (sim, quem manda no Aécio é a Andrea e o neto do Tancredo é reles fantoche) vai aceitar que o irmão fique fora do jogo – logo ela que tem uma imensa voracidade no manuseio de verbas publicitárias e em ameaças a jornalistas vai aceitar que o sonho de “chegar lá” se espatifou?
  2. Deixará Serra de lado o hábito de com sua troupe na PF fazer dossiês contra os inimigos e mesmo ações como foi o episódio contra a Roseana Sarney – para ficar em um só registro?
  3. Alckmin, o mentor insosso que viu a criatura engolir o criador… vai aceitar o papel de coadjuvante a ser descartado ali adiante?

São questões que irão surgir ao longo dos próximos dias – mas a verdade é que, neste momento, Doria surge como uma tábua de salvação.

Por isso a euforia do velho amigo – que foi stalinista e hoje é capaz de andar congregando na Opus Dei.

– Com o Doria, o Moro vai ficar sem o que fazer…

E agora… o Temer vai escrever uma cartinha pro Joe Biden?

05132016 - Temer e a cartinha

Comandando um governo sem reconhecimento e sem legitimidade, Temer entrará para o anedotário nacional por algumas pérolas que tornam o dia a dia dos brasileiros mais felizes, porque mostram claramente que nada pode estar tão ruim que não possa piorar.

Ao contrário do que o folclórico Catta Preta apregoava em posts que beiravam o nonsense e ajudaram a revelar a que nível de leviandade e de irresponsabilidade podem chegar membros do Poder Judiciário, o Temer assumiu e o dólar subiu e a bolsa caiu – porque está patente, ao menos neste primeiro momento, que o “novo governo” é tão ou mais desqualificado do que aquele que não servia, inclusive com a reutilização de muitos que deixaram de ser bandidos para virarem santos.

Até Joaquim Barbosa, ídolo maior dos revoltados e condutor do julgamento do Mensalão no STF saiu do seu silêncio para dizer: “Não tem legitimidade” e ainda aproveitou para fustigar sem dó e nem piedade o PSDB: “É um grupo que, em 2018, completará 20 anos sem ganhar uma eleição”.

Claro está que logo-logo Joaquim Barbosa, o “justiceiro” perderá a consigna que ornava o seu nome e voltará a ser apenas e tão somente um reles ex-ministro do STF indicado pelo PT.

O governo Temer, que navega com o respaldo dos éticos de plantão, não é reconhecido como legítimo pelos países e virou motivo de chacota. Uma rádio argentina o entrevistou e o locutor fez-se passar pelo presidente Macri e ficou visível que ele, Temer, não tem noção do ridículo ao tentar comunicar-se num portunhol deprimente, parecendo um “gardelón” com brilhantina no cabelo, botóx nas facesmetido a poliglota e que não passa de uma figura esdrúxula que denigre a imagem dos brasileiros.

Diante da negativa de Obama em ligar para Temer, dizem que ele está escrevendo uma carta para o vice de Obama, de quem diz ser amigo e parceiro, usufruindo de uma amizade plena, sincera, intensa e cheia de confidências e intimidades inclusive familiares. Escreverá dizendo que não é justo que Obama não ligar para ele, que não é legal que o Barack não reconheça que ele fez tudo aquilo que a embaixadora dos EUA mandou ele fazer e vai mandar para o Congresso nacional todas as mudanças e alterações que ela mandou que ele fizesse e que ainda assim o Obama não ligasse.

Uma ligação do Obama, ele certamente dirá isso na carta para o Joe, valerá mais do que todos os beijos e abraços que já recebeu do Aécio, do Caiado, do Cunha, do Sarney, do Bob Jefferson, do Gedel, do Eliseu, do Gilmar Mendes, do Bolsonaro e do patinho da Fiesp.

No entanto, a coisa é bem mais complexa do que uma eventual ligação que não virá do Obama pode indicar. Em conversas com pessoas de representações diplomáticas e sempre falando na condição de absoluto anonimato, eles revelam uma inquietude com a situação política do país.

De recuou em recuo…

Na noite desta sexta-feira, 13, Michel Temer, o interino, pouco mais de 24 horas no poder, já recuou e restaurou a autonomia da Cultura, que passa a ser uma “secretaria” dentro do MEC e não terá o comando de Mendonça Filho.

De coice em coice

O Itamaraty, sob o comando de José Serra, resolveu partir para o ataque. Depois de não conviver com as críticas dos brasileiros, o catatônico e cadavérico chanceler disse, por meio de nota liberada na noite desta sexta-feira, que ele, na condição de comandante supremo e dono da verdade, não aceita que nenhum país coloque em cheque ou critique o golpe no Brasil.

 

Com Temer, Brasil viverá a paz dos cemitérios

Consulting the Oracle 1884 John William Waterhouse 1849-1917 Presented by Sir Henry Tate 1894 http://www.tate.org.uk/art/work/N01541

Nos primórdios, as pessoas do povo e os mandatários recorriam aos oráculos para saber o futuro, para antever o destino e tentar fugir das armadilhas criadas pelo acaso ou, na crença de então, por desígnios de uma infinidade de deuses que viviam em conflito entre si e redundando em castigos, pragas e penas para os “mortais”.

A partir da mitologia sabe-se da existência de três destes oráculos famosos (Delfos, Zeus e Ámon). A própria Bíblia trata de oráculos em vários momentos, por vezes textualmente e em outras de modo simbológico.

Entender o que vai acontecer com a política brasileira passa por esta vontade latente de querer saber o que vem pela frente – mas já se sabe que aquilo que começa de um desvio da normalidade democrática – ou da forma irresponsável como um ex-ministro do STF reduziu a “pausa democrática” – não tem como chegar a bom termo.

Ungido a condição de presidente, Temer é, em termos reais, a própria negação daquilo que se propõe a conduzir: a pacificação. Instrumento barato e leviano para a construção do golpe, Temer será mais um joguete nas mãos dos interesses ocultos que comandaram e financiaram a cruzada moralizadora, do que chefe da Nação – visto que está destituído da legitimidade direta que apenas as urnas podem conceder e conceber através do voto.

Não se trata aqui de discutir se Dilma tinha ou não a qualificação mínima para ocupar a presidência – e estou entre aqueles que julgam que Dilma é uma desqualificada para o cargo e o PT tem imensa responsabilidade com tudo que está acontecendo neste momento, na medida em que não teve compreensão da própria incompetência de Dilma e referendou a aventura de sua reeleição. Mas a democracia não permite que a esperteza e a vilania de alguns sejam maior do que a opção da maioria – e, volto a dizer, não se discute se a opção é certa ou errada. Na democracia, o princípio básico que foi ignorado, desde outubro de 2014, foi o desrespeito pela decisão da maioria.

Claro que o presidente interino contará com o respaldo da mídia, a conivência do Judiciário e a cumplicidade de um Congresso Nacional ávido por recursos, porque muitos dos sócios da carnificina estão sem acesso aos recursos faz tempo e alguns inclusive morrendo de inanição.

Imaginar o que virá depende muito da percepção da própria realidade que vivemos, mas é certo que o Governo Temer irá pautar muito de acordo com as expectativas dos grupos que o apoiaram/financiaram e dos movimentos pautados por uma ética de ocasião e de defesa de bandeiras de proteção de seu espaço social.

Assim, ainda que não esteja definido tudo que virá, está mais do que claro que teremos:

  • os bancos – os grandes beneficiados nos 14 anos do governo do PT (Lula + Dilma) -continuarão lucrando cada vez mais;
  • arrocho salarial e perdas para os aposentados;
  • as empresas públicas serão passadas nos cobres, porque o próprio PT acabou por ajudar o discurso privatizante, envolvendo tais empresas em denúncias de negociatas e corrupção;
  • reformas na previdência, que são mais do que urgentes, pois vem sendo adiadas desde os tempos de… Sarney;
  • criminalização dos movimentos sociais;
  • profundas mudanças na CLT, com o fim de direitos e conquistas da classe trabalhadora;
  • drástica redução da fiscalização por parte do Ministério do Trabalho sobre as condições de vida dos trabalhadores em áreas rurais/fazendas;
  • alteração na lei de greve do serviço público;
  • redefinição do papel de empresas públicas como a Caixa e a própria EBC;
  • drástica redução nos programas de inserção social e de transferência de renda;
  • o abandono do Mercosul como prioridade de integração;
  • abertura do mercado consumidor brasileiro para empresas estrangeiras sem nenhuma salvaguarda às empresas nacionais – empresas aéreas é apenas o ponta-pé inicial;
  • agressivo programa de concessão de setores de infra-estrutura, priorizando o lucro dos concessionários, em detrimento da sociedade (vide diferença entre os pedágios de rodovias licitadas nos governos FHC e nos governos do PT).

Não se trata de antever o caos, mas apenas o exercício de ir juntando fragmentos e formando um mosaico que pode parecer sombrio – mas que terá como principal destinatário na hora de pagar a fatura o trabalhador, que estará em uma situação cada vez mais fragilizada.

Temer tenta reinventar o presidencialismo de concessões e barganhas para governar

O presidencialismo de coalizão – que fracassou em todas as tentativas de sua implantação depois do advento da redemocratização – está sendo exercido do modo mais perverso e degradante pelo vice que articula e apóia de todas as formas o processo de impeachment. É um processo vergonhoso, que deve estra causando náuseas naqueles que pensavam que o mal do Brasil estava em Dilma ou no PT.

A barganha escancarada, a troca mais descarada de ministérios por apoio da base parlamentar nos trouxe até aqui – num processo de degradação que se acentua com a rapidez da informação. Nem mesmo os mentores e protetores de Temer estão conseguindo suportar a hipocrisia da bandalheira assim escancarada. Até para a promiscuidade é preciso ter parâmetros e limites.

Temer, para se vender diferente, prometeu o que não poderá entregar.

E não poderá entregar nenhuma das promessas e nenhum dos compromissos – porque é do jogo político sempre prometer muito mais do que se imagina entregar.

Das reformas prometidas, poucas se tornarão realidade.

E, muitas delas, são urgências não para os financiadores da aventura constitucional do golpe. São urgências para a realidade do Brasil e a própria realidade do nosso futuro.

Por mais que se queira negar, mas o Brasil não pode, por exemplo, prescindir de uma profunda reforma previdenciária – sob pena não de inviabilizar o sistema, mas de tornar o Brasil uma Grécia em grandes proporções.

Como não encarar de frente a necessidade de uma profunda reforma política – com o fim da verdadeira bandalheira que virou a criação de partidos, a grandiosidade do fundo partidário e a orgia de benefícios que se ofertam a siglas que se formam para que políticos façam a mais desavergonhada barganha por benefícios que o Parlamento oferece.

A cláusula de barreira é uma imperiosidade democrática, porque ninguém consegue fazer qualquer política séria e responsável tendo que negociar cargos e favores com 20 ou 30 siglas. O povo brasileiro não suporta bancar esta orgia de modo continuado.

O tamanho da base de apoio determina inclusive o tamanho da burocracia e das opções para acomodar aliados gananciosos e famintos por vagas – muitos deles há 14 anos sem acesso a verbas públicas, das quais querem voltar a usufruir mesmo que seja por meio de um golpe escancarado e que avilta a imagem do país no cenário mundial.

Será sempre oportuno lembrar que Temer assumiu o compromisso de diminuir dos atuais 31 para 20 ministérios – mas já se deu conta de que isto não será possível. E que ninguém se surpreenda se ele chegar mesmo a aumentar o número de pastas.

Porque o preço do apoio no parlamento é um assento ministerial – quando será necessário acomodar até mesmo figuras do porte e da falta de qualificação de um Roberto Freire. Imagina o que mais ainda surgirá como novidade…

Por medo de ficar sem espaço, PSDB deixa beicinho de lado e adere ao projeto de Temer

O risco de ficar alijado do comando dos melhores orçamentos de um eventual e já previsto Governo Temer fez com que o PSDB antecipasse o fim do beicinho e deixasse de lado qualquer pudor infantil: quer ser e estar no governo.

Mas não é apenas o tucanato que corre e se oferece, agora sem nenhum pudor ou receio, para fazer parte do governo sem votos de Temer. O Demo também está sendo chamado – e já aceitou o convite! – para fazer parte do processo de construção da governabilidade.

Não deve causar nenhuma surpresa este repentino sentimento cívico e de brasilidade. A equação é simples e revela a faceta perversa por trás do processo constitucional do golpe parlamentar via impeachment: ninguém mais estava conseguindo viver sem as verbas públicas.

E a proposta de Temer é sedutora, em todos os sentidos: os ministérios serão entregues inteiros, ou no linguajar mais correto e conhecido: porteira fechada e torneiras abertas. As siglas que receberem determinado ministério, receberão integralmente a estrutura para repartir entre seus filiados e apoiadores. Inclusive a administração da publicidade deixará de ser feita pela Secom – que deverá ser extinta. No caso, a propaganda institucional do “novo” Governo ficará nas mãos da Casa Civil – Eliseu Padilha no comando.

Mas é importante destacar que há sim uma unidade e uma afinidade ideológica entre Temer e os partidos que se associam ao grande projeto de usurpação da democracia – ou como diz Ayres Brito numa demonstração de cinismo e doentia hipocrisia: pausa democrática. Tal qual figuras manipuladas no tabuleiro – e aqui não há como não lembrar do tabuleiro de xadrez do Harry Potter onde as pedras são movimentadas a partir de uma varinha “mágica” imantada – os convivas querem se esmerar e aproveitar o clima de “aliança” que acreditam ter no Congresso Nacional para finalmente conseguirem aprovar um pacote de medidas que, atendendo aos ditames de quem os financia e orienta ideologicamente, contemple:

  • reforma da previdência, com o fim da vinculação dos reajustes das aposentadorias e pensões ao salário mínimo de quem estiver na ativa
  • venda de ativos/privatização (abertura do capital da CEF é o principal)
  • volta do antigo modelo de exploração do petróleo no Brasil
  • proteção ostensiva ao capital, sem risco de taxação de grandes fortunas (algo que, por covardia, o PT não teve coragem de avançar)
  • redução dos investimentos nas áreas sociais
  • incremento da política de concessão e de privatização de bens e serviços públicos (inclusive nos moldes que o governo do PT fez, mas sem as amarras e precauções observadas)
  • desvinculação constitucional de percentuais do orçamento para educação e saúde
  • “atualização” da CLT com o fim do protecionismo aos trabalhadores que é considerado excessivo e lesivo
  • direito de grave e até emsmo de sindicalziação dos servidores públicos
  • nova e militar relação com os movimentos sociais, buscando a sua sistemática criminalização
  • fim das políticas de valorização das minorias, com a extinção de ministérios e secretarias
  • incorporação do MDA – Ministério do desenvolvimento Agrário pelo MA – Ministério da Agricultura e o fim do apoio à agricultura familiar
  • fusão de ministérios que supostamente atuam de modo convergente
  • rediscutir a estrutura universalizante do SUS
  • rever critério do Fies e pró-Uni, com a implantação da meritocracia
  • fim imediato do “Mais médicos” e do “Ciências sem fronteiras”
  • reforma política com a implantação gradativa da cláusula de barreira

É um ideário para deixar parcela significativa da sociedade com os cabelos em pé.

Infelizmente, até agora não foi possível ler nada sobre dois pontos importantes:

  • fim do imposto sindical
  • fim do fundo partidário

Porque se é verdade que nada justifica o governo repassar dinheiro para as centrais sindicais como preconizam alguns – mas esta proposta não prosperará no governo Temer porque as centrais que mais precisam deste dinheiro ou de outro dinheiro público o estão apoiando (NCST, Força, UGT e CSB), igualmente nada justifica que a sociedade banque a estrutura dos partidos.

A lógica é simples: se cabe ao trabalhador bancar sua entidade sindical é importante também destacar que cabe ao militante partidário bancar a estrutura de seu partido…

PSDB volta para o muro: o dilema entre ser e estar

A possibilidade de retornar ao poder de onde foi enxotado por falta de votos, ainda que escudado em um mandato sem votos e decorrente de um processo contra um governo pelo qual foi derrotado, anda tirando o sono e fazendo com que o PSDB volte ao muro de suas indefinições, de suas incertezas, da precariedade de suas convicções, da volatilidade de suas estratégias e principalmente de sua angústia latente e necessidade orgânica e fisiológica em voltar a comandar orçamentos.

Há um conflito latente entre as seções paulista e mineira do tucanato, que atuam mais como facções de grupos políticos que possuem estratégias distintas para o momento de instabilidade que ajudaram a construir de modo sistemático e orgânico a partir da não aceitação do resultado das urnas.

O agrupamento paulista precisa voltar ao poder, inclusive por conta dos acordos regionais e sua relação com o patronato retrógrado que tem na Fiesp a voz mais forte e financeiramente mais amiga. Para este grupo, estar nas cercanias do poder é mais importante e decisivo, neste momento, do que efetivamente ser o governo.

Esta estratégia é capitaneada por caciques do partido que, octagenário um e a caminho desta faixa outros dois, sabem que lhes resta pouco tempo de vida política para cumprirem acordos e reforçarem o caixa do partido com o cumprimento de antigos compromissos – inclusive para eleições futuras. Mesmo Alckmin, o mais “novo” dos donos da facção paulista do tucanato, tem 63 anos e avalia que 2018 será sua última possibilidade eleitoral.

A pressa maior é de Serra, hoje com 74; Aloysio Nunes, com 71 anos e sem cacife eleitoral para voos; e FHC, com 84 anos. Eles querem, precisam e buscam de todas as formas fazer com que a facção paulista volte ao governo federal – porque sabem que este é o momento sonhado para implementar o ideário de uma venda rápida, e com respaldo popular, das empresas públicas. O discurso e o cenário está tudo pronto.

Bem posicionados junto aos formadores de opinião no eixo Rio-São Paulo, ainda que citados de modo constante por delatores e pela realidade dos fatos da corrupção em nosso País, blindados pela Lava-Jato e mediante o silêncio conivente da mídia, esta trinca tenta impedir que a facção mineira tenha vez, voz e espaço.

Do tucanato, Aécio Neves é o mais novo. Tem 56 anos e quase tantas citações e problemas quanto a idade – trazendo um sem fim de menções nada louváveis a si e a irmã, sua conhecida operadora financeira e que nas Gerais atende pela nada louvável alcunha de “Goebbels das Gerais”.

Aécio sabe que sua oportunidade eleitoral não é agora, mas sim em 2018.

Para muitos tucanos, o ideal seria deixar Dilma e o PT continuarem sangrando até 2018 – para que cheguem ao pleito exauridos e consumidos. Dentro deste cenário, em 2018 seria mais um referendo do que uma eleição.

Dois fatores, no entanto, ainda colocam em cheque esta visão de 2018 e reforçam o pragmatismo da facção paulista:

  • a sempre terna candidatura de Marina, que, a despeito de suas contradições, indecisões e indefinições ideológicas, poderia seduzir o eleitorado mais a esquerda como uma espécie de voto útil ;
  • o surgimento da candidatura Bolsonaro, se ela sobreviver a insanidade latente e a verborrágica compulsão para falar asneira que o parlamentar carioca tem, que pode servir de alento para aqueles que se afinam com o discurso meramente moralista que o aprendiz de clown carrega.

A reunião do PSDB para decidir se decide ou não está marcada para o dia 3 de maio, mas já é sabido que, a despeito de qual seja a decisão que o partido vier a ter, ela não terá validade. Será apenas uma forma de pintar o muro para que cada uma das facções possa estar representada na “vontade” de estar no poder, mesmo sem ser poder.

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